HOME > EDICIONES > Año 1999, Volumen 49 - Número 4
Trabajos de Investigación
Estado nutricional de vitamina A no binômio mãe/recém-nascido em duas maternidades no Rio de Janeiro, Brasil
Rejane Andréa Ramalho. Luiz Antonio dos Anjos, Hernando Flores Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal de Pernambuco, Brasil.
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RESUMO Estado nutricional de vitamina A no binômio mãe/recém-nascido em duas maternidades no Rio de Janeiro, Brasil Os níveis de retinol no sangue materno e no sangue do cordão umbilical foram avaliados em 220 puérperas atendidas em maternidades públicas no Rio de Janeiro. A prevalência materna de valores de retinol inferiores a< 1,05mmol/L foi 23,6% enquanto que no recém-nascido foi 55.4%. Houve correlação entre a prevalência de hipovitaminose A materna e baixos níveis de retinol no recém- nascido (X2 =14,2; P <0,0001) e o valor médio de retinol no sangue de cordão foi significativamente menor (2,49 ± 1,08 mmol/L) em máes com hipovitaminose A (3,21 ± 0,97 mmol/L; p < 0,0001). Observou-se ronda urna relação entre prevalência de níveis de retinol no recém-nascido inferiores a 1,05 mmol/L e baixo peso ao nascer (X2 = 6,86; P < 0,01). Os dados encontradas justificam a introdução de monitorização durante o pré-natal direcionado do estado nutricional de vitamina A durante a gestação e aleitamento.
Palavras-chave: Hipovitaminose A, vitamina A, recém-nascidos, retinol sérico, deficiência de vitamina A.
SUMMARY Vitamin A status in mother/newborn pairs from two health facilities in Rio de Janeiro, Brazil The aim of the present study was to assess maternal and newbom (umbilical blood) vitamin status in 220 mothers/newboms at birth from two public health centers in Rio de Janeiro, Brazil. The proportion of low retinal levels (cut-off point 1.05 mmol/L) in the umbilical cord of new (55.4%) was gteater than found in their mothers (23.6%). A highly ignificant correlation (X2 =14.2; p<0.0001) was found between the levels of retinol of mothers and newboms. The overall prevalence of low levels of retinol in the mother was 23.6% whereas that of newboms was 55,4%. Umbilical cord mean concentration less than 1.05 mmol/L was significantly lower (2.49±1.08 mmol/L) in mother vitamin A deficiency (3.21± 0.97 mmol/L; p < 0.0001). Low birth weight was associated with vitamin A deficiency (X2 = 6.86; p< 0.01). These data reinforce the need for close pre-natal attention in vitamin A status.
Key words: Vitamin A, newboms, nutritional status, hypovitaminosis A, vitamin A deficiency.
INTRODUÇÃO Essencial em importantes processos metabólicos, a vitamina A tem um papel de destaque em períodos de intenso crescimento proliferativo e desenvolvimento tecidual como os observados na gestação, sendo particularmente crítica Da. embriogenese e no desenvolvimento fetal (1,2).
Em gestantes, tem sido observado urna tendência à diminuição dos níveis de retinol sérico especialmente no último trimestre (3), predispondo ao surgimento de síntomas de hipovitaminose A durante a gestação que antes e além de provocar lesões oculares, determina uma série de alterações no metabolismo intermediário, possivelmente devido a um ajuste fisiológico que permite maior liberação da proteína de ligação do retinol (RBP- retinol binding protein) para a circulação materna (3,4).
Considerando que a carência de vitamina A e su as consequências são possíveis de ocorrer sem sinais detectáveis na mãe; que o rápido desenvolvimento a que está submetido o feto pode fazê-lo mais vulnerável a deficiência sub-clínica (2), e que o atendimento aos requerimentos do lactente depende da concentração e do volume consumido, e ambos são intluenciados tanto pela ingestão dietética adequada quanto pela reserva vitamina A materna, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado desta carência nutricional pode ter grande impacto sobre a saúde do recém-nascido em termos de diminuição da demanda de serviços de saúde e internações hospitalares.
O objetivo do presente estudo foi avaliaro estado nutricional de vitamina A no binômio mãe/recém-nascido, assistidos em maternidades da rede pública de saúde no município do Rio de Janeiro, como forma de alertar os profissionais de saúde para a importância do controle e prevenção deste problema nutricional durante a gestação.
METODOLOGIA Foram utilizadas amostras de 5 ml de sangue obtidas por punção venosa de 220 puérperas voluntárias, bem como amostra de sangue do cordão umbilical de seus respectivos recém-nascidos, obtidos por ordenha do cordão, na sala de parto de duas maternidades localizadas no Município do Rio de Janeiro, escolhidas por sorteio (Maternidade Municipal Carmela Dutra e Hospital Geral de Bonsucesso), no período ie outubro de 1995 a dezembro de 1996.
Após a obtenção do consentimento para participar no estudo, coletou-se as amostras de sangue que foram imediatamente submetidas à centrifugação (3.000 rpm) para separação e extração do soro e, em seguida, congeladas a - 20°C nos bancos de sangue dos referidos locais de coleta. Uma vez por semana foram transportadas para o Laboratório de Bioquímica do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de janeiro, para determinação espectrofotométrica dos níveis de retinol segundo o método Bessey-Lowrey modificado (5). Os níveis de retinol sérico foram agrupados por classes intervalares de 0,35 mmol/L (10 mg/dl) e o ponto de corte de < 1,05 mmol/L (< 30 mg/dl) foi utilizado para indicar hipovitarninose A (6).
Para caracterizar a amostra, obteve-se, através de entrevistas realizadas com as parturientes informações sobre: renda familair, grau de escolaridade, procedência e condições de saneamento das moradias. A renda familiar foiconvertida em salários mínimos (SM) da época (= US$100.00) e categorizados em 4 grupos: < 1 SM; 1 a 2 SM; 3 a 5 SM e = 5 SM.
A escolaridade das parturientes foi classificada como: analfabeta (não frequentou escola); 1º grau completo (8 anos) ou incompleto; 2º grau completo (11 anos) ou incompleto; e 3° grau completo (curso universitário). As condições de saneamento foram descritas segundo informações de abastecimento de água (água ligada a rede pública com ou sem canalização; poço com ou sem canalização e outras formas de abastecimento), esgoto (ligado à rede geral; fossa e a céu aberto) e coleta de lixo (regular; irregular ou ausente). A procedência das puérperas foi classificada de acordo com o local de moradia em regiões do município: norte, sul, oeste, serrana, região dos lagos ou outras regiões.
Outras informações pertinentes, como participação em programa de assistência pré-natal, número de consultas e idade gestacional foram coletadas através de entrevistas pessoais e complementadas por consulta aos prontuários das puérperas. Adicionalmente foram obtidos dados referentes referentes aos, conceptos tais como: sexo, comprimento e peso ao nascer. Todas as informações coletadas foram registradas em questionários e formulários pré-codificados e pré-testados.
Os recém-nascidos com peso inferior a 2500 g foram classificados como nascidos com baixo peso e aqueles com período gestacional inferior a 37 semanas como prematuros. O critério de nascimento a termo referiu-se a recém-nascidos com período gestacional entre 37 e 41 semanas. Considerou- se como participação em programa de assistencia pré-natal a puérpera que tivesse realizado no mínimo 1 (uma) consulta a cada semestre.
Os procedimentos estatísticos incluíram o teste tde Student para a comparação das médias de retinol do recém-nascido (níveis deretinol no sangue de cordão umbilical) entre as mães com hipovitaminose A e com níveis adequados. As associa~6es entre o estado nutricional de vitamina A das maes e dos recém- nascidos (1,05 mmol/L) assim como o estado nutricional de vitamina A do recém-nascido e seu peso ao nascer foram avaliados pelo teste do chi-quadrado (X2). Para todas as estaústicas um valor de probabilidade < 0,05 foi utilizado para estabelecer significancia.
RESULTADOS Das 220 puérperas estudadas, 69,3% tinham idade maior que 20 anos. A maioria teve parto normal (77,1 %) e acompanhamento pré-natal (90,0%) e uma frequência média de 5 consultas (Tabela 1). A maioria tinha baixa renda (59,5% com renda familiar até 2 SM), baixa escolaridade (76,8% apresentavam o 1 grau incompleto) e 72,7% residiam na zona norte do município do Rio de Janeiro (Tabela 1). Dentre os recém-nascidos 59,1% eram do sexo masculino, 11,5% apresentaram baixo peso ao nascer (< 2500 g) e o percentual de prematuridade (<37 semanas) no estudo foi de 16,9%.
TABLA 1
Características gerais de 220 puérperas e seus recém-nascidos asistidos na
Maternidade Municipal Carmela Dutra e Hospital Geral de Bonsucesso
do Municipio do Rio de Janeiro, 1995/1996
 A concentração média de vitamina A sérica materna (±Desvio Padrão) foi 1,5±0,60 mmol/L, sendo 23,2% o total de hipovitaminose A encontrado (retinol sérico < 1,05 mmol/L). Já os valores médios e o desvio padrão dos níveis de retinol no sanguede cordão umbilical foi 0,94±0.38 mmol/Lea prevalência de valores inferiores a 1,05 mmol/L foi 55,4% (Tabela 2).
TABELA 2
Distrubuição do valores de retinol de 220 puérperas e seus recém-natos
(níveis de retinol no sangue de cordão) asistidos na Maternidade Municipal
Carmela Dutra
e Hospital Geral de Bonsucesso deo Municipio do Rio de Janeiro, 1995/1996
 Houve correlação entre a prevalência de hipovitaminose A em mãe e recém-nascido (X² = 14,2; P < 0,0001; Tabela 3). O valor médio de retinol no sangue de cordão foi significativamente menor (2,49±1,08mmol/L) em mães com hipovitaminose A do que nas de nível adequado (3,21±0,97 mmol/L; p < 0,0001). Não houve correlação entre níveis de retinol materno e prevalência de prematuridade ou de baixo peso ao nascer, entretanto, observou-se uma relação entre prevalência de níveis de retinol inferiores a 1,05 mmol/L no sangue de cordão e baixo peso ao nascer (X2 = 6,86; P < 0,01; Tabela 4) o mesmo não tendo sido observado com relação ao período gestacional nem com a associação destas duas variáveis (idade gestacional e peso ao nascer).
TABELA 3
Correlação da prevalência de hipovitaminose A em mãe e filho
(níveis de retinol no sangue de cordão) de 220 puérperas asistidos na
Maternidade
Municipal Carmela Dutra e Hospital Geral de Bonsucesso
do Municipio do Rio de
Janeiro, 1995/1996
TABELA 4
Correlação entre o estado nutricional de vitamina A (níveis de retinol no
sangue de cordão) e peso ao nacer de 220 recém-nascidos asistidos na
Maternidade Municipal Carmelo dutra e Hospital Geral de
Bonsucesso do Munici´pio do Rio de Janeiro, 1995/1996

DISCUSSÃO A ingestão adequada de nutrientes na gestação constitui condição fundamental para a saúde do concepto e redução das desordens congênitas (7). Entretanto, baixa concentração de vitamina A em Sangue de cordão ao nascer vem senda considerada como condição fisiológica do recém-nascido (8-10) face aos estudos que demonstram o insignificante efeito que os níveis de retinol sérico materno têm sobre o status de vitamina A do concepto ao nascimento (2,11,12).
Os estudos que demonstram que a ingestão de altas concentrações de retinol na gestação causam teratogenia advêm basicamente da experimentação animal (13-15). Por outro lado, a experimentação animal também enfatiza que estágios carênciais de vitamina A em períodos críticos da gestação têm efeitos teratogênicos (2,14,16). Períodos similares de vulnerabilidade à ingestão deficiente de vitamina A provavelmente são idênticos na gestação humana (2). Entretanto, poucas ações visando o tratamento e prevenção da hipovitaminose A têm sido direcionadas a esse grupo populacional. Este fato pode estar relacionado, inicialmente às preocupações relativas a urna suplementa~ao nesse mo- mento biológico pela possibilidade de teratogenia (17). Somamse a isso aos achados que demonstram uma baixa reserva hepática de vitamina A em ratos ao nascer, apesar da dieta ingerida durante a gestação garantir níveis adequados de vitamina A (12,18) e às observações de que recém-nascidos de mães bem nutridas têm baixas concentrações de vitamina A hepática ao nascer (19).
O mecanismo e a regulação da transferência placentáriade vitamina A, assim como as consequências da deficiência deste nutriente durante a gestação e aleitamento em humanos, não estão bem estabelecidos. Em recente trabalho desenvolvido por Sivakumar et al. (20) ficou demonstrado que a suplementação de vitamina A durante a gestação provocou aumento dos níveis séricos de retinol materno e no sangue de cordão, em gestantes com níveis séricos inferiores a 1,05 mmol/L, especialmente ao final da gestação. Ortega et al. (21) examinando a relação entre o estado nutricional de vitamina A de mulheres durante o último trimestre de gestação e as concentrações no leite materno, demonstraram que níveis de retinol sérico e no leite (de transição ou maduro) foram significativamente maiores em mães suplementadas durante a gestação. Nas gestantes com concentrações de vitamina A sérica < 1.05 mmol/L, os níveis de vitamina A no leite foram significativamente inferiores aos de gestantes com níveis séricos adequados. O presente estudo encontrou uma associação entre o estado nutricional de vitamina A materno e níveis de retinol no sangue de cordão umbilical de recém-nascidos. Tal fato sugere ser este o momento biológico que mereça o máximo de atençao em termos de tratamento e prevenção desta carência nutricional.
O presente estudo encontrou, ainda, uma relação entre a prevalência de níveis de retinol no sangue de cordão umbilical abaixo de 1,05 mmol/L e o baixo peso ao nascer. A prevalência de baixo peso ao nascer reflete problemas nutricionais maternos. Isto sugere que as reservas hepáticas de vitamina A, reduzidas em todos os recém-nascidos, sejam menores ou mesmo ausentes nestas crianas (19). Recém-nascidos com baixo peso, portanto, constituem grupo de risco para deficiência de vitamina A, não só ao nascer, mas também subsequentemente, por ocasião do aleitamento, caso o leite seja proveniente de nutrizes com dieta pobre em vitamina A, desnutridas ou a criança seja desmamada precocemente (1).
Os resultados deste trabalho demonstram uma alta prevalência de níveis inadequados de retinol no grupo estudado. Este quadro tornar-se mais preocupante pelo aumento dos requerimentos maternos durante a fase de lactação, não devido a um aumento da demanda tecidual materna e sim a uma reposição das quantidades perdidas diariamente no leite, considerada quantitativamente a mais importante fonte de vitamina A para o recém-nascido, visto que aingestão de vitamina A e as concentrações de retinol sérico durante a gestação influenciam a composição do leite materno (21). Assim, um aporte satisfatório de vitamina A na gestação e no período de lactação se reveste de grande importância no sentido de garantir suprimento adequado à criança nos primeiros meses de vida.
As baixas reservas orgânicas fetais e a inadequação dietética materna pósnatal podem representar sérios danos para o crescimento e desenvolvimento infantil, concorrendo para elevar os índices de morbidade e mortalidade nos primeiros meses de vida. Tais fatos justificam um programa de monitorização, durante atendimento pré-natal, direcionado ao melhoramento do estado nutricional de vitamina A durante a gestação e aleitamento, particularmente nas camadas mais carentes da população.
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Recibido: 05/10/1998 Aceptado: 23/07/1999
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