HOME > EDICIONES > Año 1999, Volumen 49 - Número 4
Trabajos de Investigación
Investigação de alterõaçes no perfil lipídico de criançãs e adolescentes obesos
Mara Andréia Valverde, Márcia Regina Vítolo, Rose Vega Patin, Maria A. M. Schimidt Escrivdo, Fernanda L. Ceragiolli Oliveira, Fábio Ancona-Lopez Departamento de Pediatría. Universidade Federal de Sao Paulo-Brasil.
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RESUMO Investigação de alterõaçes no perfil lipídico de criançãs e adolescentes obesos As alterações no perfil lipídico que são sabidamente fatores de risco para o surgimento da doença aterosclerótica estão associadas ao excesso de peso. Assim, este estudo foi realizado com o objetivo de estudar a incidência destas alterações em crianças e adolescentes de acordo com dois padrões de referência, bem como analisar o comportamento do peso relativo segundo a presença ou não de tais alterações. Foram estudados os níveis séricos de Colesterol Total (CT) e suas frações e de Triglicérides (TG) em 74 crianças e adolescentes obesos com mediana de idade de 11 anos e 10 meses para os meninos e de 10 anos e 9 meses para as meninas e com mediana de relação Peso/Estatura (P/E) de 151 % e 149% para os meninos e meninas, respectivamente. Os valores de lipídeos plasmáticos foram classificados segundo os padrões de referência da American Heart Position Statement Circulation (AHPSC) e de Kwiterovich. Observou-se que crianças com níveis de HDL-colesterol (HDL) plasmático alterados, apresentaram P/E significantemente maior do que as demais. De acordo com os valores de Kwiterovich observa-se que maior número de indivíduos apresentaram valores indesejáveis ou limítrofes delipídeos séricos (91,9%), HDL (93,6%) eTG (67,6%) quando comparado com aquele detectado com o uso da Referência da AHPSC. Concluí-se que a obesidade é condição importante para a determinação de alterações no perfil de lipídios plasmáticos, devendo ser inclusa como fator para indicar a investigação de dislipidemias entre crianças e adolescentes. Os valores apresentados por Kwiterovich parecem refletir melhor tais alterações.
Palavras chave: Perfillipídico, infancia, adolescencia, obesidade.
SUMMARY Alterations of the Seric Lipid Profile in o children and adolescents Alterations in plasmatic lipid profile known to be risk factors for atherosclerotic disease and have associated with Qbesity. This research was designed in order to s the incidence of these alterations in obese children and adolescents according to two different reference patterns. Analyses of seric levels of Total Cholesterol (CT) and fractions and of Triglycerides (TG) were done. The sample included 74 obese children and adolescents with average age equal to 11 years and 10 months for boys and years and 10 months for boys and 10 years and 9 months for girls and with mean weight/height ratio (W/H) equal to 151 and 149 % for boys and for girls, respectively. Plasmatic lipid values obtained were classified according to American Heart Position Statement Circulation (AHPSC) and to Kwiterovich refference patterns. It was observed that patients with abnormal seric HDL-cholesterol (HDL) levels had a significantly greater (W /H) then the other group. It was also noticed that a greater number of individuals presented abnormal or borderline plasmatic lipid levels (91,9%), specially HDL (93,6%) and TG (67,6%) according to Kwiterovich than AHPSC. Obesity showed to be an important factor in determining lipid profile values and should be included as a variable to indicate screening of these lipoproteins childhood and adolescence.
Key words: Lipid profile, childhood, adolescence, obesity.
INTRODUÇÃO
A preocupação com a prevenção, na infância, das doenças do adulto tem sido responsável pelo surgimento de uma série de estudos que demonstram que a doença aterosclerótica tem origem em idades precoces. Em 1958, Holman et al (1) observaram presença de depósitos lipídicos na camada íntima da aorta de indivíduos com idade superiora 3 anos. Asuperfície afetada desta artéria mostrou lento aumento até o 10° ano de vida, havendo incremento mais rápido da extensão da lesão após está idade. Estes autores constataram, ainda, a presença de placas fibrosas macroscópicas a partir da 2a. década de vida, demonstrando que o processo aterosclerótico tem início muito antes de manifestações clínicas serem detectadas.
Dados publicados sobre o "The Bogalusa Heart Study” revelam que os estágios iniciais do surgimento da aterosclerose estão relacionados aos níveis séricos de lipoproteínas na infância o que reforça o conceito de que alterações do perfil lipídico nessa fase podem ser preditivas da doença arterial coronariana (DAC) na vida adulta (2). A presença de alterações no perfil lipídico de crianças obesas tem sido descrita largamente na literatura científica (3,4). No Brasil, Oliveirael el al (5) analisando dados de 83 crianças de 6 a 10 anos de idade descrevem alterações no perfil lipídico em 90% e 73% das crianças grande e médio obesas, respectivamente.
A presença de fatores adversos desde a infância pode facilitar o surgimento e a progressão do processo aterosclerótico. Estudos em adolescentes que faleceram por traumatismo, mostraram notável associação entre os níveis séricos de lípides e lipoproteínas, a pressão arterial sistólica e o grau de aterosclerose coronariana (6). Estes achados são suficientes para justificar intervenção pediátrica com detecção e prevenção de fatores de risco para o surgimento de eventos cardiovasculares deletérios.
Desta forma, sabendo-se a importância da monitorização dos níveis séricos de lipídeos que sofrem alterações devidas à presença de excesso de peso, foi realizado um estudo com a finalidade de analisar o comportamento destes em população de crianças e adolescentes obesos comparando a incidência de alterações de acordo com o padrão de referência utilizado. Tal assunto 'e de extrema importancia uma vez que o Brasil está rapidamente trocando o problema alimentar do déficit para o excesso, mesmo nas classes menos favorecidas socialmente (7).
CASUÍSTICA E MÉTODO
O presente trabalho foi realizado pelo Grupo de Estudos em Obesidade da Disciplina de Nutrição e Metabolismo do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM), que avaliou os níveis séricos de lipídeos de 74 crianças e adolescentes obesos atendidos no Ambulatório de Obesidade Infantil do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo/EPM.
Os exames laboratoriais estudados consistiram em CT, frações (HDL, LDL E VLDL) e TG coletados após 12 horas de jejum e dosados no Laboratório Central do Hospital São Paulo. As análises de colesterol total e HDL foram realizadas segundo método enzimático colorimétrico descrito por Eggstein & Kuhlman (8). A leitura foi realizada por microprocessador fotométrico ABA-100 (marca). Para as dosagens dos TG, CT e HDL usou-se o "kit" de reagentes do Laboratório "Miles do Brasil Ltda." e o HDL foi dosado após precipitação com sulfato de dextran, utilizando-se o precipitante reativo do Laboratório "Wiener" (Rosário, Argentina). A LDL foi estimada para valores de TG menores do que 400 mg/ dl utilizando a seguinte fórmula: LDL + CT - (HDL + tg/5) (9).
As medidas antropométricas utilizadas foram peso e estatura, à partir das quais foi calculada a relação P/E com o uso das tabelas do NCHS (10) como população de referência. O diagnóstico de obesidade era feito quando a relação P/E era superior a 120%, sendo definida como sobrepeso os valores situados na faixa entre 110 e 120%. Foi, ainda, realizada avaliação do estágio de desenvolvimento puberal dos pacientes, segundo os critérios descritos por Marshall & Tanner (11,12).
Os valores obtidos de TG, CT e lipoproteínas foram comparados aos valores de referência em percentis publicados pela AHPSC (13) e com aqueles recomendados por Kwiterovich (14), sendo ambos distribuídos por idade e sexo. Para análise do comportamento da relação P/E de acordo com o diagnóstico alterado e não alterado foi utilizado o padrão de referencia da AHPSC (14).
Análise estatística
A análise estaústica contou com os testes "t" e de Mann- Whitney (15) para duas amos tras independentes com o objetivo de comparar o sexo masculino e o feminino. Uma vez que os resultados obtidos não foram significantes, meninos e meninas foram alocados no mesmo grupo para a realização das análises subsequentes.
Para comparar as variáveis HDL, VLDL, LDL, CT e TG entre os grupos com estágio de desenvolvimento puberal 1-2, 3 e 4-5 foi aplicada a Análise de Variância por Postos de Kruskal-Wallis (15). o Teste de Mann- Whitney (15) Coi utilizado para comparar a relação P/E entre os grupos com perfil lipídico (CT, HDL, LDL, VLDL e TG) alterado e não alterado. As análises foram efetuadas com o auxílio do software SPSS 4.
RESULTADOS
Das 74 crianças estudadas, 27 (36,5%) eram meninos com mediana de idade de 11 anos 10 meses e 47 (63,5%) meninas que apresentavam mediana de idade de 10 anos e 9 meses e com mediana de relação P/E de 151% (variação: 124 a 203) para os meninos e 149% (variação: 116 a 206) para as meninas (Tabela 1). Os valores medianos dos lipídeos plasmáticos da população estudada estão descritos na Tabela l. Dos meninos, 2 (7,4%) eram pequeno obesos, 6 (22,2%) eram médio e 19 (70,4%) grande obesos e das meninas 1 (2,1 %) apresentava sobrepeso, 7 (14,9%) eram pequeno obesas e 8 (17,0%) e 31 (66,0%) eram médio e grande obesas, respectivamente.
TABELA 1
Características gerais das crianças e adolescentes obesos do sexo masculino
e feminino participantes do ambulatorio de obesidade da Disciplina
de Nutrição e Metabolismo do Departamento de Pediatria da UNIFES/EPM
Características |
Masculino (n=27)
Mediana Variação |
Femenino (n=47)
Mediana Variação |
Triglicérides (mg/dl)
Colesterol Total (mg/dl)
LDL-colesterol (mg/dl)
HDL-colesterol (mg/dl)
VDLD-colesterol (mg/dl)
Relação P/E (%)
Idade (anos, meses) |
104 (74-349)
146 (85-200)
101 (52-133)
32 (20-44)
19 (06-44)
151 (124-203)
11,10 (7,11-15) |
95 (50-247)
147 (73-231)
100 (22-156)
31 (20-50)
18 (10-34)
149 (116-206)
10,9 (7,6-17,10) |
Emrelação ao desenvolvimento puberal, 21 (80,8% ) meninos estavam em estágios 1 ou 2, 2 (7,9%) em estágio 3 e 3 (11,3%) emestágios 4 ou 5. Das meninas 31 (65,0% ) estavam emestágios 1 ou 2 e 6 (12,7%) e 10 (21,3%) estavam em estágio 3 e 4-5, respectivamente. A análise estatística não demonstrou diferenças significantes entre os níveis plasmáticos de lipídeos das crianças e adolescentes estudados, de acordo com os diferentes estágios de desenvolvimento puberal (Tabela 2).
|
|
1 e 2 |
3 |
4 e 5 |
H calculado* |
HDL (mg/dl)
VLDL (mg/dl)
CT/ (mg/dl)
TG (mg/dl)
LDL (mg/dl) |
32,34
20,04
150,38
112,19
98,21 |
34,57
22,17
152,88
100,25
112,71 |
34,00
29,75
150,45
138,33
94,10 |
0,52 ns
2,89 ns
0,48 ns
4,68 ns
3,52 ns |
*H crítico = 5,99
Ns não significante
Comparando-se a relação P/E das crianças com alterações nos níveis de lipídeos plasmáticos com aquelas sem alteração, observou-se que crianças com HDL plasmático baixo apresentam P/E significantemente maior (156,09%) do que aquel as sem alteração nessa lipoproteína (145,29%). Para os demais lipídeos (CT, LDL, VLDL e TG) não foi observada diferança estatíticamente significante (Tabela 3).
TABELA
Relação Peso/Estatura (%) de crianças e adolescentes obesos, de acordo
com a avaliação do perfil lipídico (Alterado/Não Alterado)
segundo referencia da AHPSC (13)
|
Z calculado* |
AHPSC |
Alterado |
Não Alterado |
Colesterol Total
LDL-colesterol
HDL-colesterol
VDLD-colesterol
Triglicérides |
158,52%
164,02%
156,09%
158,93
154,05% |
151,60%
151,26%
145,29%
150,72%
151,07% |
0,08 ns
1,17 ns
2,06**
0.97 ns
0.56 ns |
* Z crítico (( (0,05%) 1,96
** Significante (( (0,05%)
ns não significante
Ao comparar-se a proporção de crianças com perfil lipídico alterado de acordo com o uso da classificação proposta pela AHPSC (13) com a publicada por Kwiterovich (14), observa-se que maior número de indivíduos estudados tem valores indesejáveis ou limítrofes de lipídeos plasmáticos, especialmente HDL e TG, com o uso da segunda classificação. Observa-se que 43 (67,6%) crianças tinham TG aumentado e 59 (93,6%) apresentavam HDL baixo ou limítrofe, segundo Kwiterovich (14), senda que 68 (91,9%) das crianças estudadas apresentavam algum tipo de alteração no perfil de lipídeos plasmáticos (Figuras 1 e 2).
FIGURA 1
Detecção de alterações no Perfil Lipídico, Colesterol Total e Triglicérides de
crianças e adolescentes obesos de acordo com os valores propostos pela
American Herat Position Statement Circulation (1) e por Kwiterovich (2)

FIGURA
2
Detecção de alterações dos níveis das frações lipídicas do Colesterol
plasmático
de criançãs e adolescentes obesos de acordo com os valores de referencia
propostos
pela American Herat Position Statement Circulation (1) e por Kwiterovich (2)

DISCUSSÃO
A instalação e a progressão do processo aterosclerótico está ligada à interação de uma série de variáveis que incluem características individuais e fatores relacionados ao estilo vida (dieta, tamanho corporal, atividade física). É difícil saber a contribuição de cada Catar isoladamente, porém, há relatos de que níveis adversos de lipídeos plasmático estão fortemente associados corn níveis elevados de peso (16).
Neste trabalho, as crianças e adolescentes estudados apresentaram, em maior proporção, valores alterados de HDL (68,75%), sendo observada também elevada incidência indivíduos com TG (35%) e VLDL (37%) aumentados, o que parece estar de acordo com dados publicados na literatura os quais têm demonstrado associação entre o peso relativo alterações nos niveis de lipídeos plasmáticos, encontrado com rnaior freqüência níveis elevados de TG e baixos de HDL (17-20).
Os achados de Levine et al., (21), que estudaram crianças obesas com idade média de 13,3 anos (7-20 anos), demonstraram dimensão inferior de alteração no perfil lipídico quando comparados com este estudo, tendo sido encontradas 56% das crianças com níveis anormais de lipídeos, sendo que 24% apresentavam TG acima do percentil 95, e 25% tinham HDL abaixo do percentil 5. Apesar das diferentes dimensões, os dados obtidos em ambos trabalhos denotam o papel deletério do acúmulo excessivo de gordura corporal que parece alterar o metabolismo lipídico propiciando o surgimento de dislipidemias secundárias a esta condição.
A interferência da obesidade nos níveis de lipoproteínas de indivíduos adultos foi demonstrada em trabalho realizado por Kannel et al., (22) no "The Framingham Study", no qual voluntários do sexo masculino foram acompanhados por um período de 24 anos. Foi observado que a elevação de 4,5 gramas no peso correspondia a aumento de 7,6 mg/dl no colesterol plasmático, sendo que a elevação no peso relativo estava associada a aumento nos fatores de risco para a DAC, incluindo a colesterolemia.
Dados obtidos por Gidding et al., (23) no "The Bogalusa Heart Study" com crianças com idades entre 7 e 9 anos acompanhadas por 8 anos, também mostraram a participação do excesso de peso na alteração do perfil lipídico, demonstrando associação entre adiposidade e níveis diminuídos de HDL e aumentados de TG, tendo sido demonstrado por análise de multivariância que esta associação era maior com a mudança de peso do que com o peso elevado propriamente dito.
A explicação para este fenômeno envolve a atuação ineficiente da insulina no metabolismo do indivíduo obeso e a resistência periférica à ação da insulina, que ocorre mesmo nos estágios iniciais da obesidade (24). A interferência da obesidade no nível e na sensibilidade a insulina é comprovada ao verificar que a perda de peso em crianças obesas diminui a resistência a ação deste hormônio (25). É descrito, ainda, que crianças obesas apresentam insulina imunorreativa de jejum significantemente mais elevada do que as não obesas estando esta associada positivamente com TG e negativamente com HDL (26). Da mesma forma, no projeto "The Cardiovascular Risk in Young Finns Study" no qual Raikatari et al., (27) acompanharam 1865 indivíduos com idades entre 6 e 24 anos por seis anos, demonstrou-se que a insulina de jejum elevada estava relacionada com hipertrigliceridemia, sendo tal associação independente da obesidade. Observou-se, também que a insulinemia basal estava aumentada nos indivíduos que apresentaram agrupamento subsequente de hipertrigliceridemia, baixos níveis de HDL e hipertensão durante seu seguimento. Neste mesmo estudo, dados obtidos de l398 jovens entre 15 e 24 anos demonstraram correlação positiva entre o IMC e os ni veis de LDL, TG e insulina, e negativa coro HDL (28).
Dados do "The Bogalusa Heart Study" obtidos por Jiang et al., (29), demonstraram que a insulinemia de jejum estava forte e positivamente correlacionada com TG e VLDL e negativamente com HDL independentemente de outros fatores como a obesidade. Entretanto uma forte associação da insulinemia com o perfil de lipoproteínas foi observada entre os obesos mais do que entre os não obesos mostrando o papel do excesso de peso na alteração das lipoproteínas plasmáticas, especialmente, TG, VLDL e HDL (29) o que corrobora os dados obtidos no presente
trabalho.
A ocorrência de níveis elevados de TG e VLDL e baixos de HDL na obesidade parece dever-se ao fato de que a eficiência da lipase lipoprotêica (LpL) é mediada pela ação da insulina. Desta forma, com a resistência à ação da insulina que ocorre devido ao acúmulo de peso excessivo a atividade da LpL ficará prejudicada, o que irá fazer com que excesso de VLDL e TG permaneçam na circulação sangüínea por remoção diminuída, havendo pelo mesmo motivo formação deficiente de HDL (30). Há, ainda, evidências de que a circulação aumentada de lipídeos irá estimular aumento na produção de VLDL pelo fígado, fato que contribuirá nas alterações dos níveis séricos de lipídeos típicas da obesidade.
Analisando os resultados deste trabalho observamos, que a adequação P/E do grupo com HDL alterado foi significantemente mayor do que a do grupo que não apresentava alteração nesta lipoproteína o que evidencia a intensificação deste mecanismo a medida que aumenta a gravidade da obesidade entre os indivíduos com excesso de peso.
Assim, a prevenção da progressão da obesidade mesmo que o indivíduo não consiga atingir um peso relativo normal parece ser benéfica uma vez que, a obesidade, sendo uma condição que tende a permanecer ao longo do tempo, uma vez instalada e estando esta relacionada ao surgimento de alterações secundárias no perfil lipídico pode contribuir para o surgimento de doenças no aparelho circulatório do adulto, cuja magnitude dependería do tempo em que o indivíduo permanecesse em condição desfavorável (31). Além disso, uma vez iniciada, a aterosclerose tende a ser auto-perpetuante, portanto, intervenções iniciadas precocemente parecem ser ótimas para a prevenção da jnstalação e progressão deste processo.
A preocupação com estes aspectos desde a infância provém, ainda, do fato de que indivíduos com níveis alterados de lipídeos plasmáticos têm mais chances de permanecerem desta forma ao longo da vida. Crianças obesas que se tornam adultos obesos têm um perfil lipíqico de maior risco cardiovascular quando comparadas com aquelas que se mantém magras (32). Uma grande proporção dos adultos com presença de fatores de risco provêm de uma infância com valores no final superior da distribuição normal. Assim, adultos com colesterol alto parecem provir em grande parte de uma infância com valores elevados de colesterol normal (33-35).
Estudo realizado por Muchacka et al., (36) demonstrou que a obesidade foi o fator de risco mais importante em crianças para apresentarem dislipidemia. Assim, observa-se com preocupação a proporção de crianças que apresentam algum tipo de alteração sérica nos níveis de lipídeos dentro da amostra estudada, uma vez que em 1984 as doenças do aparelho circulatório foram responsáveis por mais da metade dos óbitos dos indivíduos acima de 50 anos e de um quarto das pessoas entre 20 e 49 anos, que tal vez pudessem ter sido prevenidos ou minimizados se ocorresse intervenção precoce (37).
Desta forma, fica demonstrado que a verificação do perfil lipídico entre criaças e adolescentes obesos mostra-se necessária afim de que se possa atuar precocemente nos fatores de risco para a DAC. Faz-se necessário, para tanto, a utilização dos valores de referência que melhor reflitam alterações nestes lipídeos. Em nosso estudo, comparando a proporção de indivíduos com alterações plasmáticas nos níveis de lipídeos detectados com o uso dos padrões sugeridos pela AHPSC (13) com aquela obtida com o uso da tabela proposta por Kwiterovich (14) e que foi adotado como referencia para avaliação de risco em crianças com idades entre 2 e 19 anos pelo 20 Consenso Brasileiro sobre Dislipidemias - Sociedade Brasileira de Cardiologia (38) observa-se que com o uso da segunda um maior número de crianças com valores alterados é diagnosticada, já que a mesma apresenta um nível intermediário que é formado por aquelas crianças que ainda não apresentam alterações mas que devem ser acompanhadas com precaução pois apresentam níveis plasmáticos que não as isentam de risco. O Consenso Brasileiro, entretanto, não incluiu o nível intermediário para HDL como triagem o que impede a detecção, o acompanhamento e a intervenção precoce em crianças que são potenciais portadores de alterações no perfil lipídico no futuro. Deste modo, o uso dos valores proposto por Kwiterovich incluíndo os valores intermediários parece ser mais adequado em serviços especializados no atendimento de crianças e adolescentes obesos, havendo como única ressalva, a falta de valores normais para VLDL o que prejudica a investigação de deslipidemias entre crianças obesas, uma vez que, como foi demonstrado oeste trabalho, esta é uma das lipoproteínas que mais sofre alteração na obesidade. É importante lembrar que a obesidade mesmo na infância deve ser encarada como fator indicativo para o "screening" de alterações lipídicas como é indicado a partir do Consenso anteriormente citado.
Finalmente, este estudo demonstra que a investigação da deslipidemia entre crianças obesas é de extrema importância pois, ainda que a obesidade não seja um fator de risco "independente" Das análise multivariadas dos fatores de risco cardiovasculares, o desenvolvimento da obesidade contribui para a aquisição de risco (39). Há sempre uma predisposição genética que parece ser mais permissiva do que determinativa, requerendo ganho excessivo de peso, dieta inadequada, sedentarismo ou alguns outros fatores de risco desfavoráveis para causar sua expressão (40). Assim, a prevenção de eventos cardiovasculares adversos deve iniciar-se precocemente sendo que a correção do excesso de peso deve estar sempre prevista quando se faz o delineamento das estratégias de intervenção para o tratamento das dislipidemias na infância (41,42).
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Recibido: 19/05/1997 Aceptado: 12/08/1998
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