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Trabajos de Investigación
Determinantes dietéticos da ingestão alimentar e efeito na regulação do peso corporal
Luciana Neri Nobre, Josefina Bressan Resende Monteiro Departamento de Tecnologia de Alimentos. Universidade Federal de Viçosa. Brasil.
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RESUMO Determinantes dietéticos da ingestão alimentar e efeito na regulação do peso corporal A obesidade é uma patologia multicausal, considerada, atualmente, como um dos principais problemas de saúde pública. Sua prevalência vem crescendo muito nas últimas décadas alcançando índices alarmantes no Brasil e no mundo. Independente de fatores associados com predisposição genética, essa patologia está sempre acompanhada de distúrbios na ingestão alimentar e de alto consumo de refeições com alta densidade energética e com o sedentarismo. Deste modo, a obesidade ocorre quando se tem uma perda de equilíbrio entre a ingestão alimentar e o gasto energético. Tendo em vista esses aspectos, este artigo faz uma revisão das pesquisas realizadas com intuito de melhor entender os fatores que afetam a ingestão alimentar e regulam o peso corporal, visto que, na atualidade, um dos grandes interesses dos pesquisadores, na área de nutrição, têm sido os determinantes dietéticos que exercem maior influência no processo de ingestão de alimentos, assim como os fatores, fisiológicos, físicos e químicos dos alimentos que mais atuam no processo de saciação e saciedade.
Palavras chave: obesidade, saciação, saciedade, ingestão de alimentos.
SUMMARY The role of dietetic factors on food intake and body weight Obesity is a multifactorial pathology currently considered one of the main public health problems. Its prevalence is increasing dramatically in the last decades, reaching huge rates in Brazil and many other countries. Regardless of the factors associated with genetic predisposition, this pathology is often associated with abnormal food intake, and also with high consumption of caloric foods and sedentary habits. Thus, obesity is the result of an imbalance between food intake and energy expenditure. One of the greatest research interests in nutrition has currently been the dietetic determinants that may exert an influence on the process of food intake, as well as the role of foods on physiological, physical and chemical factors most related to the processes of satiation and satiety. Based on these aspects, this paper analyzes several research works to gain a better insight of the dietetic factors affecting food intake and body weight regulation.
Key Words: obesity, satiation, satiety, food intake.
INTRODUÇÃO
A obesidade é uma doença de etiologia multifatorial na qual podem confluir
fatores genéticos, endócrinos, psicológicos, sócio-ambientais e dietéticos
(1). Vem sendo descrita desde os primórdios da humanidade (2); e é atualmente,
um dos mais graves problemas de saúde pública representando a doença metabólica
de mais alta prevalência e cuja incidência cresce dramaticamente desde as últimas
duas décadas (3).
O tratamento da obesidade, entretanto, continua produzindo
resultados insatisfatórios, em grande parte devido as estratégias equivocadas
e pelo mau uso dos recursos terapêuticos disponíveis (4). Assim sendo,
pesquisas têm sido realizadas no sentido de focalizar e identificar o fatores
chaves contribuintes para o desenvolvimento desta patologia com o objetivo de
projetar estratégias que poderão prevenir com sucesso futuro ganho de peso e
talvez induzir perda de peso (5,7).
Entre as várias áreas de pesquisas da obesidade, a composição
da dieta tem sido bastante estudada, numerosas pesquisas (5,6,7,8,9,10,11) têm
relatado o papel das fibras, proteínas, carboidratos, lipídios e alimentos
modificados no desencadeamento da saciação e saciedade, assim como no controle
da ingestão alimentar.
Além das áreas de pesquisa citada acima, as propriedades físicas
e químicas dos alimentos têm despertado interesse de grande número de
pesquisadores. Dentre as propriedades químicas, a densidade energética e
palatabilidade têm sido bastante estudada e são consideradas ter um
significativo efeito na ingestão energética (12,13), independente do conteúdo
de macronutrientes e palatabilidade (12), sendo que refeições com baixa
densidade energética foram associadas com maior saciedade (13), podendo ser
usadas como estratégia para perda de peso.
Em face da crescente ocorrência dessa patologia na
atualidade vários estudos vêm sendo conduzidos com intuito de melhor entender
os fatores que afetam a ingestão alimentar e regulam o peso corporal. Com base
nas informações citadas acima esta revisão vem, pois, discutir os recentes
estudos relacionados aos determinantes psicológicos, cognitivos, fisiológicos
e dietéticos sobre a ingestão alimentar e regulação do peso corporal.
Fatores que regulam o apetite e a ingestão alimentar
Fatores psicológicos, cognitivos e fisiológicos. Segundo
Blundell (14), atualmente, aceita-se que o controle do apetite seja baseado em
uma rede de interações que faz parte de um sistema psicobiológico. Este
sistema é composto por 3 níveis: eventos psicológicos (percepção da fome,
desejo de comer e sensações hedônicas), eventos fisiológicos e operações
comportamentais (refeições, lanches, ingestão de energia e macronutrientes) e
os metabólicos periféricos com suas interações metabólicas e
neurotransmissores no cérebro. Assim sendo, o apetite reflete a operação
sincrônica de eventos e processos nos três níveis.
Primeiramente, o cérebro é informado sobre a quantidade de
alimentos ingeridos e sobre o seu conteúdo em nutrientes por sinais aferentes.
O trato gastrointestinal é equipado com quimiorreceptores e mecanorreceptores
especializados que monitoram a atividade fisiológica e passam informações ao
cérebro, principalmente, por meio do nervo vago (14,15). Essas informações
aferentes constituem uma classe de "sinais de saciedade" e formam
parte do controle do apetite pré-absortivo. A fase pós-absortiva inicia-se
quando os nutrientes sofrem digestão e atravessam a parede intestinal para
entrar na circulação.
Assim esses produtos, que refletem o alimento consumido,
podem ser metabolizados nos tecidos ou órgãos periféricos, ou podem entrar
diretamente via circulação, sendo que em qualquer dos casos, esses produtos
constituem uma outra classe de sinais metabólicos da saciedade. Adicionalmente,
os produtos de digestão e agentes responsáveis por seu metabolismo podem alcançar
o cérebro e ligar-se a quimiorreceptores específicos (16), influenciar a síntese
de neurotransmissores ou alterar algum aspecto do metabolismo neuronal, sendo
que em cada caso, o cérebro é informado sobre alguns aspectos do estado metabólico
resultante do consumo de alimentos (14).
Complementando o mecanismo em epígrafe, Naslund et al. (17)
relatam que isto ocorre porque após ingestão alimentar uma cascata de hormônios
é liberada de diferentes partes do trato gastrointestinal e esses podem
influenciar funções que promovem digestão de nutrientes por meio de ações
na motilidade, secreção e absorção. Entre os principais hormônios liberados
com a presença do alimento na luz gastrointestinal tem-se a colecistocinina
(CCK), secretina, gastrina, peptídio YY (PYY), poliptídio inibidor da gastrina
(18), grelina dentre outros (19). O esvaziamento gástrico, motilidade
gastrointestinal e funções biliares são promovidos pelo CCK e PYY, enquanto o
estímulo da secreção do suco gástrico, impedimento do refluxo gástrico para
o esôfago durante aumento da atividade gástrica e aumento do esvaziamento gástrico
é promovido pela gastrina (18). A presença de alimentos na luz intestinal
favorece o aumento de CCK, gastrina e secretina, estimulando com isso a secreção
gástrica e secreção pancreática exócrina. A CCK estimula a liberação do
PYY e esse inibe a liberação da CCK, sendo que o PYY pode também atuar
freando o íleo, diminuindo o esvaziamento gástrico e trânsito intestinal
(20). A grelina atua na regulação da ingestão alimentar, peso corporal, síntese
do hormônio de crescimento (19,21,22,23,24) e secreção de gastrina e insulina
(23).
Dentre esses hormônios, a colecistocinina apresenta grande
relevância nos processos digestivos e de saciação e é um dos mais abundantes
neuropeptídios no cérebro (25).
Fatores relacionados à composição da dieta: Teores de
fibras, carboidratos, índice glicêmico, proteínas, lipídios e alimentos
modificados (Light e Diet) e álcool. Pesquisas mostram que as fibras
exercem ação sobre a ingestão de alimentos e saciedade, e tem sido, também,
apontada como forte aliada no controle do apetite (26). Alimentos contendo mesma
concentração calórica, mas com teores diferentes de fibras, exercem efeitos
diferentes sobre a saciedade podendo ser um coadjuvante na redução de peso
durante períodos de restrição dietética (27).
Os carboidratos parecem ser eficazes na inibição do apetite
em um curto período de tempo e está associado com a estrutura do amido, sendo
que a amilose e amilopectina podem influenciar diferentemente a saciedade (6).
Wolever (28) justifica este efeito devido a amilose possuir cadeia linear,
conferindo-lhe uma estrutura regular com várias pontes de hidrogênio
dificultando assim sua hidrólise enzimática, enquanto a amilopectina apresenta
estrutura ramificada, sendo facilmente gelatinizada e hidrolizada pelas
amilases. O mesmo efeito também está relacionado com o tipo de carboidrato,
sendo que a frutose exerce maior saciação que glicose. Alimentos ricos em
carboidratos, particularmente açúcar refinado e deficientes em proteínas,
podem induzir super consumo de alimentos e consequentemente obesidade (29). Isso
ocorre, provavelmente, porque esses alimentos apresentam elevado índice glicêmico
(IG), e recentemente dietas com baixo IG (30, 31,32) têm sido indicadas no
tratamento da obesidade (30,31). IG refere-se ao aumento da glicose sanguínea
após consumo de alimentos contendo uma quantidade padrão de carboidratos (32).
Em estudo realizado por Ludwig et al. (7) com adolescentes,
obesos (% peso ideal >120), que receberam dietas com diferentes IGs (alto, médio
e baixo) foi observado o comportamento de alguns hormônios (insulina, glucagon,
hormônio do crescimento), glicose e ácidos graxos séricos. Os autores
sugeriam que a dieta com elevado IG induz alterações hormonais
(hiperinsulinemia e hipoglucagonemia) e metabólicas (redução da produção
hepática de glicose e ácidos graxos por elevada incorporação de glicose
pelas células musculares e hepáticas). Isso pode limitar a disponibilidade dos
combustíveis metabólicas, fazendo com que os obesos, na refeição seguinte,
tenham uma tendência a exceder nas quantidades consumidas, por apresentarem
maior fome, por meio de uma espécie de mecanismo compensatório para manter a
homeostase energética. Assim, seriam contra-indicadas dietas hipocalóricas com
elevado IG, por estimularem posterior hiperfagia, prejudicando tanto a programação
de perda de peso, quanto a manutenção de peso após o emagrecimento.
Para Brand-Miller et al (32), alimentos com baixo IG podem
ser benéficos no controle de peso por dois caminhos: por promover a saciedade e
por promover oxidação lipídica e gasto na oxidação de carboidratos. Assim
sendo, é de grande valia indicar alimentos com baixo IG no tratamento da
obesidade (7,30,31,32).
Em relação a saciedade induzia por proteínas,
Westerp-Plantega et al. (8) observaram que refeições com alto teor de proteínas
e carboidratos induziu maior saciedade que a induzida por elevado teor de lipídios,
apesar das refeições apresentarem mesmo volume e densidade calórica. O mesmo
fato foi observado por Stubbs et al. (33) que observaram que proteínas exercem
maior efeito inibidor do apetite quando comparado com carboidratos e lipídios.
Alimentos ricos em proteínas exercem maior efeito em ambos saciação
intra-refeição e saciedade pós-ingestiva que alimentos ricos em lipídios
(34). A explicação para tal fato se deve fato das proteínas apresentarem
maior potencial termogênico e este é um dos fundamentos que explica o controle
quantitativo da ingestão de alimentos induzido por este macronutriente (35).
A importância dos lipídios da dieta no desenvolvimento da
obesidade é bastante enfatizado pela maioria dos estudiosos da área de nutrição,
os quais relatam uma positiva associação entre ingestão de lipídios e peso
corporal (36).
Segundo Blundell et al. (37), a ingestão de lipídios pode
induzir saciedade, porém, de maneira pouco eficaz. Isto se deve, provavelmente,
ao fato dos lipídios exercerem seu efeito sobre a saciação por meio de
mecanismo no intestino delgado e refeições com elevado teor de lipídios
apresentam lento esvaziamento gástrico, assim os sinais de saciação só começam
a ocorrer após já ter ocorrido ingestão de grande quantidade de energia.
Flatt (38), propôs uma hipótese para explicar a relação
entre ingestão de lipídios e peso corporal. Segundo esse autor, a ingestão de
alimentos é regulada, principalmente, pelo conteúdo constante de glicogênio
no organismo. A glicose, o principal substrato do cérebro, e que apresenta
limitada reserva corporal (na forma de glicogênio) é dependente da ingestão
diária de carboidratos para que os estoques corporais de glicogênio sejam
formados. Assim sendo, dietas ricas em lipídios e pobres em carboidratos
estimulam uma maior ingestão de alimentos para se obter um consumo suficiente
para manutenção dos estoques de glicogênio e como conseqüência desse
consumo crônico de elevada ingestão calórica pode-se adquirir a obesidade.
Johnstone et al. (36), relatam que este fato, provavelmente,
não depende do tipo de lipídio ingerido. Monoglicerídios e triglicerídios
parecem se comportar de maneira semelhante, exercendo pequena influência sobre
a fome, apetite e saciedade. No entanto, Burns et al. (39) relatam que as
propriedades saciantes dos lipídios permanecem pobremente entendidas,
particularmente com referência as suas características físico-químicas e
citam pesquisas as quais observaram que lipídios parecem exercer efeitos
diferentes sobre a saciedade; sendo que triglicerídio de cadeia média parecem
aumentar saciedade e diminuir ingestão alimentar a um grau maior que triglicerídios
de cadeia longa.
Pesquisas desenvolvidas com alimentos modificados (light e
diet) têm mostrado que o consumo desses pode, também, contribuir para
uma maior ingestão de energia. Alimentos modificados segundo Angelluci (40) são
aqueles aos quais se agregam, subtraem (total ou parcialmente) um ou mais
ingredientes em relação ao alimento convencional correspondente. Em trabalho
desenvolvido por Gatenby et al. (10) por um período de 10 semanas com mulheres
em vida livre (estudo nas condições de vida normal, fora de um laboratório)
divididas em três grupo: consumidoras de alimentos com baixo teor de lipídios,
de açúcar e sem restrição (grupo controle) foi observado que estes alimentos
influenciaram na composição de macronutrientes da dieta, mas apresentou pouco
efeito no total de energia ingerida ou peso corporal das voluntárias.
Arsenalt e Cline (41) relatam que nos últimos anos alimentos
com baixo teor de lipídios ou de energia tem crescido exponencialmente e o
aumento do consumo desses alimentos estimula a demanda e resulta em aumento do
fornecimento de novos lipídios e alimentos hipocalóricos disponíveis nos
supermercados. Essa pesquisadoras observaram ainda que mulheres ao consumir
alimentos com baixa caloria apresentaram diminuição na ingestão de lipídios
e pequeno impacto no total da energia consumida. No entanto, tiveram elevada
ingestão de carboidratos, proteínas e micronutrientes na dieta. Segundo
Blundell e Green (42), a substituição da sacarose por adoçantes tem mostrado
que a fome retorna mais rapidamente e os consumidores destes produtos tendem a
apresentar pequeno ganho de peso quando comparado com os que não o consomem.
Entretanto, Canty e Chan (43) em pesquisa com bebidas adoçadas com adoçantes
calóricos e não calóricos comparados a água pura (grupo controle) servidas
antes do almoço observaram que os adoçantes não calóricos não aumentaram
fome ou ingestão alimentar dos voluntários, porém a bebida adoçada com
sacarose estimulou maior saciedade.
Gatenby et al. (44) relatam que há relativamente pouca
informação disponível de como esses produtos influenciam o padrão da escolha
alimentar, o consumo e ingestão global de nutrientes e se, de fato, são
eficazes na redução da ingestão de lipídios e na manutenção de um balanço
energético adequado. E em estudo desenvolvido com voluntários eutróficos em
vida livre para avaliar as implicações nutricionais do uso de alimentos com
baixo teor de lipídios num período de 6 semanas, essas pesquisadoras
observaram que apesar do uso de alimentos hipolipídicos ter tido efeito, em
curto prazo, no balanço de energia, a redução na ingestão energética em
longa duração pode ser limitada se esta estratégia dietética for utilizada
isoladamente.
Foltin et al. (45) e Gatenby et al. (10) relatam que apesar
dos consumidores de produtos modificados serem, geralmente, pessoas que almejam
perda de peso; alguns estudos, em laboratório, têm demonstrado que redução
no consumo de um macronutriente resulta em compensação energética por aumento
no consumo de outro macronutriente. Assim sendo, o uso de produtos com baixos
teores de lipídios, usado como estratégia dietética isolada, não assegura,
para os obesos, perda de peso (44). É necessária uma redução severa na
ingestão energética total (46). E o uso de produtos diet para controle
do peso só é eficazes, em longo período, quando outras medidas são adotadas
como por exemplo programa de atividade física (47). Para Weststrate et al. (47)
no entanto, produtos hipolipídicos pode ser uma eficiente estratégia para
manutenção de peso além de auxiliar na proteção de problemas
cardiovasculares para aquelas pessoas que não almejam mudança no peso
corporal, porém, para aquelas com sobrepeso ou obesidade o uso de produtos
light para controle de peso só é eficaz, em longo período, quando outras
medidas são adotadas como por exemplo programa de atividade física.
Todos os fatores relatados acima envolvidos na regulação da
ingestão de alimentos tem despertado interesse de grande número de
pesquisadores, o papel do álcool sobre o metabolismo de nutrientes e saciedade,
no entanto, tem sido pouco estudado e os estudos nessa área ainda são
bastantes divergentes.
Raben et al. (11) avaliando o efeito de dietas com similar
densidade energética ricas em carboidratos, proteínas, lipídios e álcool
sobre o gasto energético e substrato metabólico em jovens (20-30 anos) eutróficos
de ambos os sexos observaram que a refeição rica em álcool (23% do valor calórico
da refeição teste) apresentou maior ação termogênica (9%) que refeição
rica em proteínas (8,3%) carboidratos e lipídios (7,1%) apesar de não ter
sido observado diferenças no substrato metabólico, concentrações hormonais,
saciedade e ingestão após as outras refeições testes. Essas autoras
justificam tal resultado devido o álcool ter suprimido oxidação de lipídios
e leptina mais que as demais refeições.
Jéquier (48) cita vários trabalhos realizados com bebidas
alcoólicas dentre os quais alguns apresentaram resultados similares ao das
pesquisadoras acima (48) e outros com resultados contrários. Há trabalhos
mostrando que a ação termogênica (TID) do álcool (15%) é menor que da proteína
(@ 25%) e maior que a induzida por carboidratos (@ 8%) e lipídios ( @3%). Essas
pesquisas citam que o álcool pode alterar a regulação do peso corporal porque
não é estocado no nosso corpo, mas é oxidado em preferência aos demais
nutrientes (carboidratos, lipídios e proteínas) além de reduzir oxidação de
lipídios favorecendo desta forma um balanço positivo de lipídios.
Esse balanço positivo de lipídios após ingestão de álcool
também foi observado em pesquisa desenvolvida por Wannamethee e Shaper (49) e
Lahti-Koski et al. (50) que observaram que o consumo de bebida alcoólica
contribuiu diretamente para o ganho de peso e obesidade (59,50), independente do
tipo de álcool consumido pelos participantes do estudo (49).
Papel da densidade energética, forma física, volume e
porção do alimento na ingestão alimentar e saciedade
Até recentemente, a porcentagem de energia do lipídio dietético era
considerado o determinante primário da gordura corporal. No entanto, estudos
atuais têm mostrado que essa não é uma verdade absoluta, a densidade energética
e palatabilidade são grandes determinantes da ingestão de energia,
independente do conteúdo de lipídios (51).
Rolls (12) citam que a densidade energética tem sido
mencionada na literatura como um fator relevante na ingestão de alimentos.
Reforçando tal afirmação Bell et al. (52) relataram que quando participantes
ingeriram dietas densamente energéticas, porém com similar palatabilidade e
conteúdo de lipídios, houve aumento da ingestão de energia independente da
quantidade de lipídios dos alimentos, sugerindo que o grande consumo de
alimentos ricos em lipídios pode ser mais propriamente devido a sua alta
densidade de energia que do pelo conteúdo de lipídios por si.
Bell e Rolls (53) observaram que a densidade energética de
alimentos testes com teores de lipídios acima, abaixo ou similar a quantidade
comumente usada pelos americanos afetou ingestão energética em todos os níveis
de lipídios de voluntárias obesas e eutróficas, porém, essas voluntárias
ingeriram menor conteúdo em energia (20%) na refeição com menor densidade
energética quando comparada com a de elevada densidade. Apesar das voluntárias
terem consumido similar volume, o peso dos alimentos testes diferiu nas três
diferentes condições e estas apresentaram pequena diferença nas taxas de fome
(7%) e plenitude gástrica (5%). Estes resultados sugerem que percepção
relacionadas com a quantidade do alimento consumido tem maior influência na
ingestão energética a curto prazo que a quantidade de energia ingerida.
Semelhantemente, Rolls (12) observaram que as pessoas tendem a manter constante
o peso do alimento consumido e que a elevada ingestão energética é resultado,
principalmente, da elevada densidade de energia das dietas que do conteúdo de
lipídios por si e um grande agravante é que, normalmente, alimentos com
elevada densidade energética tendem a ser mais palatáveis que alimentos com
baixa densidade energética.
De maneira similar à densidade, o estado físico dos
alimentos exerce grande influência sobre os parâmetros de ingestão alimentar
e há considerável evidência de que alimentos sólidos exercem maior supressão
da fome do que alimentos líquidos (53,54).
Santangelo et al. (55) estudaram o efeito de uma mesma refeição
no estado sólido, servida com líquido (copo com água), e homogeneizada
(liquidificada) sobre a saciedade, esvaziamento gástrico e concentração de
CCK plasmática. Foi observado que a refeição contendo o alimento sólido com
líquido foi mais saciante que a homogeneizada, sendo que a homogeneização
diminuiu o tempo de esvaziamento gástrico. Esse trabalho confirma que: a
distensão do antro desempenha um importante papel na modulação do
comportamento alimentar, a área do antro apresenta boa correlação com as
sensações subjetivas de plenitude gástrica e o estado físico influencia o
esvaziamento gástrico e sensações de saciedade.
Há relativamente pouca informação sobre o efeito do volume
do alimento na taxa de esvaziamento gástrico e saciedade. A maior dificuldade
neste tipo de estudo é isolar a variável volume separadamente, visto que quase
sempre outros fatores também se modificam simultaneamente com a alteração do
volume como por exemplo a densidade energética. Rolls et al. (56) testaram a
hipótese de que o consumo de um mesmo alimento (bebida láctea) com diferentes
densidades (1.5, 1.1 e 0.8) e diferentes volumes (300, 450 e 600mL)
respectivamente, porém, com mesma quantidade energética (499 kcal) afetaria
saciedade. Observou-se que o volume da bebida láctea afetou saciedade
independentemente de suas propriedades sensorias, conteúdo de energia ou
macronutrientes. Os participantes apresentaram maior redução da quantidade de
alimentos ingeridos no almoço após oferta da pré-carga de 600 mL (servida 30
minutos antes do almoço) que após os demais volumes. O maior volume também
induziu supressão da fome e aumento da plenitude gástrica. Em concordância
com o resultado encontrado Drewnowski (46) cita que dietas com elevado volume e
baixa densidade energética pode promover saciedade e encorajar perda de peso e
que alguns estudos com bebidas dietéticas mostraram que o volume do alimento
consumido, mais que pequena diferença no adoçante ou valor energético,
determinou fome e saciedade em estudos de curta duração.
Rolls et al. (57) desenvolveram pesquisa semelhante a
anterior, porém, adicionou ar à bebida láctea para induzir variação no
volume (300, 450 e 600 mL) com objetivo de assegurar que apenas o volume fosse a
fonte de variação. Assim sendo, a densidade energética e quantidade de
caloria foi mantida constante para os três volumes. Estes pesquisadores
observaram que o volume do alimento teste afetou significativamente a ingestão
do almoço. Quando 600 mL da bebida láctea foram servidos, a ingestão do almoço
foi 12% menor quando comparado com o volume de 300 mL. Os participantes também
relataram maior redução da fome e maior aumento da saciedade após ingestão
de 450 e 600 mL da bebida quando comparado com o de 300 mL.
Resultado similar foi observado por Bell e Rolls (58), as
quais relatam que sugestões relacionadas a quantidades do alimento consumido têm
maior influência na ingestão em curta duração que a quantidade de energia
consumida. Rolls et al. (58) pesquisando o efeito do tamanho da porção do
alimento sobre ingestão energética de voluntários eutróficos e acima do peso
de ambos os sexos, concluíram que independente da idade dos voluntários o
tamanho da porção servida afetou a ingestão de energia, sugerindo que o
tamanho da porção do alimento influencia o desenvolvimento da fome e
saciedade. E isso justifica a posição de alguns pesquisadores (59) que indicam
que se deve ter um controle no tamanho da porções de alimentos e na energia
para aqueles que almejam perda de peso corporal.
DISCUSSÃO
As pesquisas citadas nesta revisão mostram que independente de
fatores associados com predisposição genética a dieta apresenta grande atuação
sobre o processo de ingestão alimentar e no desencadeamento da obesidade.
Quanto aos aspectos relacionados com a dieta, alguns fatores
já foram suficientemente estudados e hoje já é consenso entre os
pesquisadores de exercerem grande influência sobre a saciedade entre os quais
pode-se citar proteínas (8,33,34,35), estado físico (54,55,56) e densidade
energética (12,52,53).
Entretanto, outros fatores relacionados aos alimentos ainda
produzem grandes discussões e não se conseguiu, até então, um consenso de
exercerem ou não efeito sobre a ingestão alimentar e saciedade assim como por
quais mecanismos isso pode acontecer. Dentre eles citam-se os alimentos
modificados (10,40,41,42,43,44,45,46,47) e o volume do alimento (57,58,59).
As divergências dos resultados das pesquisas com alimentos
modificados se deve, provavelmente, a problemas metodológicos, assim como ausência
de um período maior de estudo e devido, muitas vezes, os pesquisadores terem
usado um número de provadores muito pequeno no experimento, não favorecendo a
aplicação de adequados testes estatísticos dificultando a análise dos dados.
Já as pesquisas citadas nesta revisão sobre o efeito do volume de pré-carga
na saciedade pode-se considerar que foram pouco abrangentes, nenhuma estudou se
houve alteração da concentração de hormônios associados com saciedade (ex.:
CCK e insulina) ou análise do esvaziamento gástrico; além do fato destas
pesquisas terem sido quase todas com alimentos líquidos e o período de estudo
ter sido muito curto.
Assim sendo, percebe-se que pesquisas mais criteriosas são
necessárias para que se obtenha consenso de quais fatores realmente afetam o
apetite e regulam ingestão de alimentos e por quais mecanismos isso ocorre. E
uma vez esclarecidas essas dúvidas, melhor será o apoio dispensado as pessoas
que apresentam dificuldade no controle da ingestão de alimentos e na manutenção
do peso corporal estável.
CONCLUSÃO
Tendo em vista os aspectos discutidos acima, existem vários fatores que
afetam a ingestão alimentar, saciação, saciedade e o controle do peso
corporal. Assim todos os fatores discutidos nesta revisão apresentam relevância
no processo de ingestão alimentar e fome; e é de grande importância para o
profissional da saúde, principalmente o nutricionista, conhecê-los para que
esse tenha condições de melhor orientar as pessoas, especialmente aquelas com
excesso de peso, as quais são vítimas constantes da indústria da obesidade
sobre o complexo sistema que é o controle da ingestão alimentar e regulação
do peso corporal.
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Recibido: 06/11/2002 Aceptado: 03/06/2003
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ALAN-VE ISSN 0004-0622 - Depósito Legal: pp 199602DF83
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