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Trabajos de Investigación
Instrumentos de inquérito dietético utilizados na avaliação do consumo alimentar em adolescentes: comparação entre métodos
Kiriaque Barra Ferreira Barbosa, Lina Enriqueta F. P. de Lima Rosado, Sylvia do Carmo Castro Franceschini,
Silvia Eloiza Priore Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Brasil
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RESUMO Instrumentos de inquérito dietético utilizados na avaliação do consumo alimentar em adolescentes: comparação entre métodos Diante das dificuldades existentes em torno do processo de avaliação do consumo alimentar, especificamente na adolescência, o presente estudo se propôs a comparar diferentes instrumentos de inquérito dietético utilizados no grupo etário em questão. Tal estudo foi realizado com 60 adolescentes, do sexo feminino, entre 14 e 18 anos de idade. Foram aplicados o 3 repetições do Recordatório de 24 Horas (R24H), Registro Alimentar de três dias (RA) e Lista de Compras (LC): da Família (LCF) e do Adolescente (LCA). Os R24H e RA mostraram boa reprodutibilidade, sendo possível inferir que uma única aplicação do R24H ou RA foi capaz de refletir a média (ou mediana) de ingestão do grupo populacional estudado. A utilização LC permitiu o conhecimento da disponibilidade de alimentos no contexto em que o indivíduo se insere. Todos os instrumentos dietéticos são passíveis de erros, assim a escolha do mais adequado deve se basear nos propósitos do estudo, bem como, na população estudada.
Palavras-chaves: Adolescência, consumo de alimentos, inquérito sobre dieta.
SUMMARY Dietary records used for food consumption evaluation in adolescents: comparison among methods Given the difficulties surrounding evaluating food consumption, specifically during adolescence, the goal of the present study was to compare different dietary assessment instruments used for this age group. The study was carried out with a group of 60 female adolescents between 14 and 18 years of age. Three repetitions of 24-Hour Recall, three-day Dietary Records and Purchase List of the adolescents and their families were collected. The 24 Hour Recall and Dietary Records had good repeatability, allowing to infer that only one application of one of these instruments was capable of reflecting the ingestion average (or median) of the study population group. The Purchase List allowed us to know the food availability within the context of the individual’s conditions. All dietary assessment instruments may contain errors, therefore the choice of the most adequate method must rely on the objectives of the study being developed, as well as the study population.
Keywords: Adolescence, food intake, food records.
Introdução
Diante do pressuposto da existência de
associação entre consumo alimentar na infância e adolescência e a crescente
prevalência de doenças crônicas não transmissíveis na vida adulta,
justifica-se o interesse em se estudar a avaliação do consumo alimentar neste
grupo etário (1). É impossível avaliar o consumo alimentar sem erros, já que
estes são inerentes aos indivíduos, bem como ao método escolhido para a
avaliação (2).
A principal característica do consumo
alimentar de indivíduos ou populações sadias é a variabilidade da dieta, ou
seja, a variação do consumo de alimentos existente entre os indivíduos
(variabilidade interindividual) e num mesmo individuo, em relação ao dia-a-dia
(variabilidade intraindividual) (3). Além da variabilidade da dieta, a
estimativa do consumo alimentar também é influenciada pelas variações
decorrentes do próprio processo de avaliação, desde a obtenção das
informações relatadas pelos indivíduos até a compilação dos dados. Entre
tais variações destacam-se a padronização inadequada de medidas caseiras na
aplicação de instrumentos de inquérito dietético, falta de treinamento dos
entrevistadores, viés de memória referente ao entrevistado, estimativas
errôneas do tamanho e da freqüência das porções consumidas, tendência a
superestimação e/ou subestimação do relato da ingestão de alimentos e má
qualidade dos dados das tabelas de composição química de alimentos (4).
Visto às dificuldades metodológicas
concernentes à avaliação do consumo alimentar, não existe um instrumento de
inquérito dietético ideal, sendo que para escolha do instrumento mais adequado
é necessário se considerar os propósitos do estudo, bem como, a população
estudada (5).
A adolescência, por ser um período
típico, para a formação e consolidação dos hábitos alimentares, tem
aspectos característicos referentes ao comportamento alimentar. Cabe ressaltar
que diante de tais peculiaridades, seria necessária maior atenção para a
realização de estudos, neste grupo etário específico. Crianças e
adolescentes têm dificuldade e muitas vezes são incapazes de estimar
corretamente o tamanho das porções consumidas (6-10).
Considerando as dificuldades existentes em
torno do processo de avaliação do consumo alimentar, especificamente na
adolescência, o presente estudo se propôs a comparar diferentes instrumentos
de inquérito dietético utilizados no grupo etário em questão.
Material e Métodos
A população estudada foi constituída de
60 adolescentes do sexo feminino, entre 14 e 18 anos de idade, estudantes de um
Colégio Específico, vinculado à Universidade Federal de Viçosa. O município
de Viçosa está localizado na região da Zona da Mata no estado de Minas
Gerais, Brasil.
As participantes do estudo foram
selecionadas com base em dois crítérios de inclusão: já terem apresentado a
menarca há pelo menos um ano (11) e morarem em Viçosa, acompanhadas da
família. Tais critérios foram estabelecidos visando promover maior
homogeneidade da amostra e evitar a interferência nos resultados da avaliação
dietética, respectivamente.
Para a avaliação do consumo alimentar,
foram utilizados o Recordatório de 24 Horas (R24H), Registro Alimentar (RA) e
Lista de Compras (LC). Na aplicação do R24H, as adolescentes foram orientadas
a relatarem todos os alimentos sólidos e líquidos, com exceção da água,
consumidos no dia anterior, registrando-se as quantidades em medidas caseiras,
comerciais ou unidades. O R24H foi aplicado em três momentos com intervalo de
aproximadamente quinze dias, utilizando a média entre as três aplicações
(XR24H) para contemplar a média de ingestão do grupo populacional estudado
(3,4).
Quanto ao RA, foi requisitado às
participantes do estudo que anotassem em formulários próprios, o que foi
consumido ao longo do dia. Tal procedimento foi realizado em dois dias não
consecutivos (de segunda a sexta-feira) e em um dia de final de semana (sábado
ou domingo). A média dos três RA (XRA) foi utilizada para refletir a média de
ingestão do grupo populacional estudado (4).
A lista de compras da família (LCF) foi
aplicada junto a própria adolescente, orientado-a a obter com os responsáveis
pela compra dos alimentos, informações quanto à quantidade mensal de gêneros
alimentícios adquiridos pela família. Tais informações foram obtidas por
meio dos cupons fiscais referentes à compra dos alimentos pela família ou da
estimativa da quantidade e freqüência de alimentos adquiridos, feita pelos
responsáveis pela compra (12). Para o cálculo da quantidade de alimento
disponível para o consumo per capita diário, dividiu-se a quantidade mensal de
alimentos comprados pelo número de moradores da casa e pelo número de dias do
respectivo mês (13).
A lista de compras do adolescente (LCA)
consistiu em informações referentes à quantidade e freqüência dos alimentos
que ele próprio comprava, sendo que tais alimentos foram somados à quantidade
per capita de alimentos obtida pela LCF, obtendo a quantidade total de alimentos
consumidos pelo adolescente dentro e fora do domicílio (LCF + LCA).
Por meio das informações referentes à
disponibilidade de alimentos, obtidas pela aplicação da lista da LCF,
analisaram-se as quantidades disponíveis para o consumo de óleo, açúcar e
sal, comparando-se a quantidade disponível para o consumo per capita destes
gêneros alimentícios com a quantidade recomendada para o consumo (13). Foram
estabelecidas como adequadas as quantidades per capita diárias propostas pelo
guia da pirâmide alimentar adaptada à população brasileira, sendo 2 colheres
de sopa de óleo (16 mL) e açúcar (56g) (14) e I Diretriz Brasileira de
Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica; sendo 6g de sal por dia
(15).
Em relação à LC, ocorreram perdas
amostrais, pois nem todas as adolescentes fizeram a estimativa, junto aos
responsáveis pela compra dos alimentos, da quantidade mensal de gêneros
alimentícios adquiridos no seu domicílio. Dessa forma, para tal instrumento
(LCF isolada e LCF+LCA), trabalhou-se com uma amostra de 41 adolescentes (68,3%
da população estudada). Entre estas, aquelas que não especificaram a
quantidade e/ou a freqüência de compra de um determinado alimento citado, teve
o consumo de tal alimento desconsiderado. Assim, em relação à análise da
quantidade disponível para o consumo per capita de óleo, açúcar e sal,
trabalhou-se com amostras de 33 (80,4%), 35 (85,3%) e 19 (46,3%),
respectivamente.
Considerando que a forma de coleta de
dados e as técnicas de entrevista influenciam a qualidade dos resultados
obtidos, foram adotados alguns cuidados metodológicos em torno dos instrumentos
de inquérito dietético aplicados. Entre tais cuidados, pode-se citar a
utilização de recursos visuais para auxiliar na estimativa da quantidade de
alimentos e das porções referidas mediante a aplicação do R24H, e nas
orientações para o preenchimento dos formulários do RA; a padronização
utilizada para a conversão das medidas caseiras e/ou unidades relatadas pelos
entrevistados em pesos e volumes, utilizando-se as informações da tabela de
medidas caseiras (16); a aplicação de todos os instrumentos de inquérito
dietético por um único observador.
A tabela de medidas caseiras se constitui
em padronizações de receitas propostas por Pinheiro et al. (16), tal
tabela foi utilizada no sentido de desmembrar as preparações caseiras citadas
pelos adolescentes em seus respectivos ingredientes, a fim de melhor classificar
os alimentos segundo os grupos da pirâmide alimentar e converter as quantidades
citadas em pesos e volumes. O cálculo da composição química dos alimentos
consumidos foi realizado utilizando-se o programa Diet Pró® (versão
3.0) (17), com banco de dados de alimentos adaptado, acrescentando-se as
informações da composição química dos alimentos da industrializados,
obtidas a partir das informações nutricionais disponíveis nos seus rótulos
e/ou serviços de atendimento ao consumidor (SAC).
Em relação aos alimentos da lista de
compras do adolescente, esta foi construída com base nos alimentos vendidos na
cantina do Colégio, no qual houve a seleção das adolescentes que participaram
deste estudo e também considerando os alimentos mais comumente consumidos,
pelos adolescentes do município de Viçosa, com base nos dados de adolescentes
assistidos por serviço de saúde específico (Programa de Atenção à Saúde
do Adolescente - PROASA), da Universidade Federal de Viçosa. As listas
construídas foram testadas antes do início do processo da coleta de dados. Tal
pré-teste foi realizado reproduzindo a mesma metodologia do presente estudo.
Este procedimento foi realizado no sentido de verificar se as listas
construídas eram adequadas ao grupo do estudo.
As adolescentes só participaram do estudo
mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos pais
ou responsáveis.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de
Ética em Pesquisa com Seres Humanos, da Universidade Federal de Viçosa.
Utilizaram-se os testes estatísticos não
paramétricos, de Kruskall-Wallis e o procedimento de comparações múltiplas
de Dunn’s. O nível de significância foi α
< 5%.
Resultados
Nas Tabelas 1 e 2, verifica-se a ingestão
energética e de nutrientes avaliada pelas três aplicações isoladas do R24H e
RA, respectivamente, bem como, pela média dos mesmos (XR24H e XRA).
Independente do instrumento de inquérito dietético utilizado (R24H ou RA),
não se observou diferença entre as aplicações isoladas, para nenhum dos
nutrientes avaliados. Comparando-se a média de ingestão do grupo populacional
estudado (XR24H e XRA) com cada uma das aplicações isoladas dos mesmos,
também não se observou diferença para nenhum dos nutrientes avaliados.
TABELA 1
Comparação entre as três aplicações isoladas do Recordatório de 24 Horas
(R24H1, R24H2 e R24H3) e a média entre elas (XR24H), em adolescentes
do sexo feminino, entre 14 e 18 anos de idade, residentes no município
de Viçosa, Minas Gerais, Brasil no ano de 2005
|
|
R24H1 |
R24H2 |
R24H3 |
XR24H |
p‡ |
|
|
X±DP*
|
Mi†
|
X±DP*
|
Mi†
|
X±DP*
|
Mi†
|
X±DP*
|
Mi†
|
|
|
| Caloria (Kcal) |
2128,60 ±736,58 |
1975,66 |
2035±630,70 |
1932,04 |
2108,47±596,30 |
2060,40 |
2090,93±523,59 |
2035,87 |
0,850 |
| Carboidrato (g) |
267,53±82,96 |
253,66 |
276,39±100,60 |
262,85 |
283,59±92,62 |
264,44 |
275,83±65,48 |
266,56 |
0,713 |
| Proteína (g) |
79,89±29,69 |
72,58 |
27,45±27,45 |
74,27 |
79,42±29,67 |
74,90 |
78,46±21,04 |
74,36 |
0,890 |
| Lipídio (g) |
79,98±40,07 |
72,18 |
71,45±27,90 |
70,53 |
75,66±32,73 |
71,41 |
75,70±27,68 |
71,07 |
0,831 |
| Cálcio (mg) |
687,34±344,17 |
656,21 |
621,51±306,70 |
59,81 |
639,51±413,72 |
541,32 |
649,45±263,82 |
604,75 |
0,449 |
| Ferro (mg) |
12,56±4,96 |
12,24 |
14,96±25,17 |
11,03 |
12,72±4,70 |
12,49 |
13,42±8,79 |
12,05 |
0,473 |
|
* Média, Desvio Padrão (n=60) † Mediana (n=60)
‡ Teste de Kruskal-Wallis com nível de significância de 5% (p<0,05) |
TABELA 2
Comparação entre os três Registros Alimentares (RA1, RA2 e RA3) e a média
entre eles (XRA), em adolescentes do sexo feminino, entre 14 e 18 anos de idade,
residentes no município de Viçosa, Minas Gerais, Brasil no ano de 2005
|
|
RA1 |
RA2 |
RA3 |
XRA |
p‡ |
|
|
X ± DP*
|
Mi†
|
X ± DP*
|
Mi†
|
X ± DP*
|
Mi†
|
X ± DP*
|
Mi†
|
|
|
| Caloria (Kcal) |
2116,04 ± 619,23 |
2067,31 |
2147,35 ± 629,02 |
2081,10 |
2146,54 ± 839,91 |
2072,36 |
2136,64 ± 548,21 |
2087,85 |
0,962 |
| Carboidrato (g) |
289,50 ± 87,46 |
275,01 |
293,84 ± 97,53 |
281,61 |
284,86 ± 107,46 |
272,26 |
289,40 ± 74,41 |
292,91 |
0,992 |
| Proteína (g) |
76,05 ± 29,05 |
74,74 |
79,59 ± 24,99 |
79,27 |
73,34 ± 30,85 |
71,31 |
76,31 ± 20,70 |
74,18 |
0,628 |
| Lipídio (g) |
73,65 ± 30,08 |
72,61 |
72,75 ± 29,07 |
68,23 |
78,57 ± 43,56 |
74,95 |
74,99 ± 25,38 |
69,44 |
0,939 |
| Cálcio (mg) |
694,19 ± 360,91 |
616,97 |
677,23 ± 323,57 |
595,38 |
677,14 ± 441,09 |
641,18 |
682,85 ± 284,78 |
642,75 |
0,956 |
| Ferro (mg) |
22,61 ± 55,38 |
12,54 |
16,11 ± 25,16 |
11,98 |
11,54 ± 4,78 |
11,53 |
16,75 ± 26,12 |
11,78 |
0,293 |
|
* Média, Desvio Padrão (n=60) † Mediana (n=60)
‡ Teste de Kruskal-Wallis com nível de significância de 5% (p<0,05) |
Na Tabela 3 verifica-se a ingestão
energética e de nutrientes avaliada por meio da XR24H, XRA, avaliação da
disponibilidade per capita de alimentos obtida pela soma das LCF+LCA e LCF
isolada. Para o carboidrato, houve diferença da ingestão obtida pela LCF+LCA
quando comparada à obtida pela XR24H. Para proteína e ferro, além da
ingestão obtida pela LCF+LCA, a ingestão obtida pela LCF isolada, também se
diferenciou da obtida pela XR24H. Observou-se ainda, que a ingestão de
proteína e ferro obtida pela LCF isolada e LCF+LCA, se diferenciou também da
ingestão obtida pela XRA.
|
|
XR24H |
XRA |
LCF + LCA |
LCF |
p‡ |
|
|
X±DP*
|
Mi†
|
X±DP*
|
Mi†
|
X±DP*
|
Mi†
|
X±DP*
|
Mi†
|
|
|
| Caloria (Kcal) |
2090,93±523,59a |
2035,87 |
2136,64±548,21a |
2087,85 |
2323,61±776,67a |
2238,79 |
1930,03±692,63a |
1867,80 |
0,101 |
| Carboidrato (g) |
275,83±65,48a |
266,56 |
289,40±74,41a,b |
292,91 |
339,83±121,36b |
318,47 |
282,20±109,95a,b |
260,27 |
0,033** |
| Proteína (g) |
78,46±21,04a |
74,36 |
76,33±20,70a |
74,18 |
64,76±32,26b |
59,98 |
58,35±31,65b |
51,21 |
<0,001** |
| Lipídio (g) |
75,70±27,68a |
71,07 |
74,99±26,38a |
69,44 |
77,13±36,64a |
73,70 |
61,67±30,19a |
57,00 |
0,074 |
| Cálcio (mg) |
694,45±263,82a |
604,75 |
682,85±284,78a |
642,75 |
593,33±377,14a |
495,88 |
548,57±367,75a |
486,72 |
0,073 |
| Ferro (mg) |
13,42±8,79a |
12,05 |
16,75±26,12a |
11,76 |
8,02±7,62b |
6,07 |
7,43±7,62b |
6,07 |
<0,001** |
|
* Média, Desvio Padrão (XR24H e XRA, n=60; LCF+LCA e LCF, n=41)
† Mediana (XR24H e XRA, n=60; LCF+LCA e LCF, n=41)
‡ Teste de Kruskal-Wallis com nível de significância de 5% (p<0,05)
** Teste de Comparações Múltiplas de Dunn´s, letras diferentes na mesma linha, indicam diferença estatística entre médias ao nível de 5% de significância (p<0,05) |
Em relação à LCF isolada, na tabela 4,
observou-se que (33) 80,4%, (35) 85,3% e (19) 46,3% das adolescentes nas quais
foi aplicado tal instrumento (n=41), especificavam adequadamente a compra
familiar de óleo, açúcar e sal, respectivamente. Comparando-se a quantidade
disponível para o consumo per capita destes gêneros alimentícios e a
quantidade recomendada para o consumo, pôde-se observar que para óleo e sal, a
mediana da quantidade comprada e provavelmente consumida, supera a mediana da
quantidade recomendada. Tal situação é reforçada na tabela 5, verificando-se
que entre os indivíduos que relatavam a compra dos alimentos em questão, 78,8%
e 73,7%, mostravam quantidade disponível para o consumo acima da recomendada
para óleo e sal, respectivamente.
Discussão
Os instrumentos para avaliação do consumo
alimentar podem ser classificados em dois grupos: aqueles que avaliam o consumo
atual (Recordatório de 24 Horas e Registro Alimentar) e aqueles que são
freqüentemente utilizados para avaliar o consumo habitual (Questionários de
Freqüência Alimentar) (4).
Willett (3) assinala que em função da
grande variabilidade diária da ingestão de alimentos, existe diferença
considerável entre consumo alimentar atual e habitual. Neste sentido,
acrescenta que o conhecimento do consumo alimentar habitual seria de grande
importância, refletindo o consumo mais próximo do verdadeiro, ou seja, a
medida de interesse.
Partindo do exposto, o melhor instrumento
para a avaliação do consumo alimentar seria o Questionário de Freqüência
Alimentar. No entanto, sua utilização requer uma validação prévia para a
população específica na qual será aplicado. Neste sentido, surge importante
limitação para os estudos de avaliação do consumo alimentar, uma vez que o
processo de validação consiste em comparar os resultados obtidos pelo
instrumento que se quer testar com os de um método que ofereça avaliação
exata do consumo alimentar.
É bem evidenciado, segundo Beaton et
al. (5) e Willett (3) que não existe um método que ofereça avaliação
exata do consumo alimentar, já que todos são passíveis de erros. Assim, uma
alternativa para a avaliação do consumo alimentar habitual seria a média de
repetidas aplicações de instrumentos de inquérito dietético que avaliam o
consumo atual (18,19).
Outra característica importante a ser
analisada na verificação da qualidade dos resultados obtidos por instrumento
de inquérito dietético se refere à reprodutibilidade, que seria a capacidade
do instrumento de reproduzir os mesmos resultados em condições semelhantes de
aplicação (3).
No presente estudo, o fato de não ter
havido diferenças entre as três aplicações isoladas do R24H e RA para
energia e nenhum dos nutrientes avaliados (Tabelas 1 e 2), mostra boa
reprodutibilidade dos dados. É também de extrema importância relatar que se
comparando a XR24H e XRA com as aplicações isoladas dos mesmos, não houve
diferença para nenhum dos nutrientes avaliados (Tabelas 1 e 2), sendo possível
inferir que, na população do presente estudo, uma única aplicação do R24H
ou RA seria capaz de refletir a média (ou mediana) de ingestão do grupo
populacional estudado.
O fato de uma única aplicação do R24H
ou RA, ter sido capaz de refletir a média de ingestão de energia e de todos os
nutrientes avaliados, torna-se de grande importância, principalmente, para
estudos realizados com o objetivo de avaliar a média de ingestão de crianças
e adolescentes, uma vez que segundo McPherson et al. (20), especialmente
neste grupo populacional, as aplicações repetidas de instrumentos de
inquérito dietético, têm sua utilização limitada devido à tendência ao
seu baixo nível de motivação e cooperação.
Por outro lado, quando se pretende
calcular a prevalência de inadequação da ingestão de nutrientes, de um
determinado grupo populacional, seria interessante utilizar aplicações
repetidas do R24H ou RA, pois, para ambos, observou-se que os desvios padrão,
mostraram tendência a serem menores em relação à média das três
aplicações (X24H e XRA) quando comparados às aplicações isoladas. Sabe-se
que a utilização de aplicações repetidas, possibilita a diminuição da
variabilidade intraindividual. Dessa forma, o desvio padrão se torna menor em
função de expressar, especialmente, a variabilidade interindividual.
Segundo Willett (3), um aspecto importante
em relação à reprodutibilidade dos dados dietéticos diz respeito ao número
de repetições necessárias para caracterizar o consumo alimentar habitual de
indivíduos ou grupo de indivíduos. Assim, alguns estudos, entre as décadas de
70 e 80 foram desenvolvidos neste sentido (5,21-24). Tais estudos apresentaram
resultados diversos. No entanto, são categóricos e convergem para a afirmativa
de que tal determinação depende da variabilidade do nutriente estudado e da
população alvo, pois alguns nutrientes tendem à maior variabilidade.
Além da variabilidade da dieta, a
estimativa do consumo alimentar também é influenciada pelas variações
decorrentes do próprio processo de avaliação do consumo alimentar, desde a
coleta das informações relatadas pelos indivíduos, até a compilação dos
dados. Destacam-se ainda as fontes de variação referentes aos entrevistados e
à análise dos dados (4).
Assim, a possível inferência de que no
presente estudo, uma única aplicação do R24H ou RA foi capaz de refletir o
consumo habitual para todos os nutrientes avaliados (Tabela 1 e 2), pode ser
reforçada pelo fato dos cuidados metodológicos em torno dos instrumentos de
inquérito dietético aplicados, uma vez que tais cuidados garantem a melhoria
da qualidade dos dados obtidos, aumento assim, o poder inferencial do estudo.
Os instrumentos de inquérito dietético
LCF+LCA e LCF isolada refletem a disponibilidade per capita diária de alimentos
e não o consumo direto tal como ocorre no R24H e RA (13). Assim, no presente
estudo pode-se inferir que, para a maioria dos nutrientes avaliados, tais
instrumentos não foram capazes de refletir a média de ingestão do grupo
populacional estudado. Foram observadas diferenças tanto da LCF+LCA quanto da
LCF isolada em relação à XR24H e XRA para a ingestão de proteína, ferro e
carboidrato (Tabela 3).
A subestimação observada para a
ingestão de proteína e ferro, referente à LCF+LCA e LCF isolada quando
comparada à XR24H e XRA (Tabela 3), possivelmente se deve à metodologia
utilizada na aplicação da LCF+LCA e LCF isolada. Era requisitado às
adolescentes que fizessem uma estimativa da quantidade de gêneros alimentícios
comprados mensalmente, por meio de cupons fiscais de compras. Estes na maioria
das vezes traziam informações incompletas, principalmente em relação à
compra de carnes. As adolescentes forneciam somente o cupom da compra mensal de
supermercado, não complementando tal informação com a quantidade de carne
esporadicamente comprada em açougues.
No entanto, mesmo considerando que a
LCF+LCA e LCF não foram instrumentos capazes de refletir a média de ingestão
para a maioria dos nutrientes avaliados, sua aplicação é de extrema
importância, a fim de auxiliar na avaliação do consumo alimentar. Segundo
Barbosa et al. (13) sua utilização permite o conhecimento da
disponibilidade de alimentos no contexto em que o indivíduo se insere, sendo
esta uma condição imprescindível no planejamento eficaz de práticas de
intervenção e orientação nutricional junto ao indivíduo, possibilitando
maior respaldo para a tomada de decisões no que diz respeito à intervenção e
a prática da educação nutricional.
Cabe ainda ressaltar que outra importante
vantagem da aplicação da LCF+LCA e LCF isolada diz respeito ao fato desta
possibilitar a obtenção de informações relacionadas à quantidade
disponível para o consumo per capita de alimentos específicos (Tabela 4 e 5),
pois o R24H e RA são instrumentos limitados no sentido de captar informações
quanto a quantidade de óleo, açúcar e sal adicionada às preparações.
TABELA 4
Quantidade disponível para o consumo per capita, obtida pela LCF,
e quantidade recomendada de óleo, açúcar e sal, em adolescentes do sexo
feminino,
entre 14 e 18 anos de idade, residentes no município de Viçosa,
Minas Gerais, Brasil no ano de 2005
|
|
Disponibilidade para consumo |
Quantidade |
|
|
n*
|
%†
|
X ± DP‡
|
Mi
|
recomendada
|
|
| Óleo (ml) |
33 |
80,4 |
26,62 ± 11,55 |
24,00 |
16,0 (a) |
| Açúcar (g) |
35 |
85,3 |
54,26 ± 29,83 |
41,66 |
56,0 (b) |
| Sal (g) |
19 |
46,3 |
10,00 ± 7,86 |
8,00 |
6,0 (c) |
|
Fonte: (a) e (b) Guia da Pirâmide de Alimentos adaptada à população brasileira (14), (c) I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (15)
* indivíduos que especificaram adequadamente a quantidade e a freqüência da compra familiar de cada um dos gêneros alimentícios: óleo, açúcar e sal
† Porcentagem em função do número total de observações (n=41)
‡ Média, Desvio Padrão
** Mediana |
TABELA 5
Adequação da quantidade disponível para o consumo per capita de óleo,
açúcar e sal obtida pela LCF, em adolescentes do sexo feminino,
entre 14 e 18 anos de idade, residentes no município de Viçosa,
Minas Gerais, Brasil no ano de 2005
|
| |
n* |
%† |
|
| Óleo (a) |
|
|
| Acima |
26 |
78,8 |
| Adequado |
07 |
21,2 |
| TOTAL |
33 |
100,0 |
| Açúcar (b) |
|
|
| Acima |
12 |
34,3 |
| Adequado |
23 |
65,7 |
| TOTAL |
35 |
100,0 |
| Sal (c) |
|
|
| Acima |
14 |
73,7 |
| Adequado |
05 |
26,3 |
| TOTAL |
19 |
100,0 |
|
Fonte: (a) e (b) Guia da Pirâmide de Alimentos adaptada à população brasileira (14), (c) I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (15)
* indivíduos que especificaram adequadamente a quantidade e a freqüência da compra familiar de cada um dos gêneros alimentícios: óleo, açúcar e sal
† porcentagem em função do número de observações para óleo (33)*, açúcar (35)* e sal (19)* |
Tais informações são de extrema
importância. Priore et al. (25) afirmam que as práticas alimentares da
região na qual foi realizado o estudo (Minas Gerais – Brasil) são marcadas
pela presença de preparações muito temperadas, chamando a atenção também
para a quantidade de açúcar presente nos doces, ressaltando ainda o hábito
marcante em consumir vegetais e folhosos refogados, em preferência aos crus, o
que acrescenta uma quantidade vantajosa de óleo nas refeições.
Para verificar se um instrumento de
avaliação do consumo alimentar é valido, ou seja, se mede corretamente aquilo
que se propõe a medir, teoricamente, bastaria comparar os resultados obtidos
pelo instrumento que se quer testar com os resultados de um método que ofereça
uma avaliação exata do consumo alimentar. No entanto, é bem evidenciado, que
não existe um método ideal para avaliação do consumo alimentar, já que
todos são passíveis de erros (3).
Assim, em função da inexistência de um
método de referência, estudos de validação de instrumentos dietéticos se
caracterizam por um procedimento de validação relativa, nos quais os
resultados obtidos pelo instrumento que se quer testar são comparados com outro
instrumento dietético que se julgue superior, tal julgamento se faz levando em
consideração a população alvo e os objetivos do estudo
(4).
Em relação à utilização dos
marcadores bioquímicos como método de referência em estudos de validação de
instrumentos dietéticos, Willett (3) coloca
que as principais desvantagens de tal procedimento se concernem ao fato das
técnicas de avaliação dos marcadores bioquímicos serem extremamente caras e
dispendiosas e por outro lado, avaliam um nutriente de cada vez.
Sempos et al. (26), afirmam que as
alterações dos marcadores bioquímicos se desencadeiam sob um processo
multicausal, no qual o consumo alimentar seria apenas um dos fatores ambientais.
Além disso, a exposição às práticas alimentares inadequadas se expressa com
grande diversidade entre os indivíduos, tanto em relação à magnitude dos
efeitos, quanto ao tempo necessário para tal expressão.
Em estudo de revisão, Barbosa et al.
(27) ressaltam que a maioria dos estudos
acerca da associação entre consumo alimentar e marcadores de risco para o
desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis e síndrome
metabólica são baseados no efeito de alimentos e nutrientes, em detrimento
daqueles que consideram o efeito de padrões dietéticos.
Moreno et al. (9) acrescentam que
quando se considera o efeito dos padrões dietéticos, leva-se em conta a
interação entre nutrientes e alimentos habitualmente consumidos na dieta de um
determinado grupo populacional. Randall et al. (28) já sugeriam a
existência de efeito sinérgico entre os nutrientes e alimentos quando estes
são considerados em conjunto.
Neste sentido, evidenciam-se na literatura
atual alguns estudos, realizados especificamente com crianças e adolescentes,
que surgem com a proposta de validar, através de marcadores bioquímicos, a
estimativa do consumo alimentar neste grupo etário. No entanto, a maioria
destes estudos é baseada em nutrientes isolados. Dixon et al. (29)
estudaram a associação entre ingestão dietética de cálcio e nível de
colesterol sérico em crianças de 4 a 10 anos de idade. Budek et al.
(30) avaliaram o consumo de proteína utilizando os marcadores de turnover
ósseo em adolescentes pré-puberes. McNaughton et al. (31) se propuseram
validar um questionário de freqüência alimentar seletivo para a ingestão de
ácidos graxos poliinsaturados, utilizando-se marcadores plasmáticos de ácidos
graxos livres. Gunnarsson et al. (32) associaram a ingestão dietética
aos marcadores plasmáticos do estado nutricional de ferro, em crianças de 6
anos de idade.
Diante das dificuldades metodológicas
existentes em torno dos estudos de estimativa do consumo alimentar e
considerando a adolescência como um período crítico, em função da sua
susceptibilidade diante da formação e consolidação dos hábitos alimentares,
o que pode conduzir os indivíduos deste grupo etário à adoção de um padrão
alimentar distorcido e às conseqüências desfavoráveis à saúde futura,
ressalta-se a importância de estudos mais detalhados acerca da estimativa do
consumo alimentar neste grupo etário, possibilitando inferir qual seria o
instrumento dietético mais adequado às particularidades do comportamento
alimentar dos indivíduos em questão.
CONCLUSÃO
Pelos resultados apresentados torna-se
possível inferir que, para o grupo populacional estudado, uma única
aplicação do Recordatório de 24 Horas (R24H) ou Registro Alimentar (RA) seria
capaz de refletir a média de ingestão de energia e de todos os nutrientes
avaliados. Cabe também ressaltar que o R24H e RA mostraram-se instrumentos com
boa reprodutibilidade.
Por outro lado, quando se pretende
calcular a prevalência de inadequação da ingestão de nutrientes, de um
determinado grupo populacional, seria interessante utilizar aplicações
repetidas do R24H ou RA.
A Lista de Compras da Família (LCF), bem
como a Lista de Compras da Família associada a do Adolescente (LCF+LCA)
não foram instrumentos capazes de refletir a média de ingestão do grupo
populacional estudado, para a maioria dos nutrientes avaliados. No entanto, sua
aplicação seria de extrema importância a fim de auxiliar na avaliação da
disponibilidade para o consumo alimentar, possibilitando maior respaldo para a
tomada de decisões no que diz respeito à intervenção e a prática da
educação nutricional, pois tais instrumentos permitem captar informações
não refletidas no R24H e/ou RA.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela concessão de bolsa
ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Nutrição da Universidade
Federal de Viçosa.
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ALAN-VE ISSN 0004-0622 - Depósito Legal: pp 199602DF83
Sociedad Latinoamericana de Nutrición
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